Quando surgiu a oportunidade de uma bolsa de estudos em Berlim, não pensei duas vezes. Sair aos 21 anos da casa dos pais era um alívio. Tava muito fora de ser como minhas primas que saíram de casa para casar. Afe! Surreal.
Claro que não foi fácil. Nunca morei sozinha, muito menos em outro país, mas meu sonho estava começando a concretizar. Estudar R.I. num país de primeiro mundo, morar em república com gente de tudo quanto é lugar. Trocar idéias, informações, conhecer outras culturas, tudo isso foi um convite à vida que sempre sonhei.
Foi numa das festas lá na república que conheci o Ian. Apesar de estar meio alta, lembro como se fosse hoje a química que rolou entre a gente logo que fomos apresentados. Ai. Um arrepio no corpo, quando ele me cumprimentou com um beijo no rosto. Senti seu cheiro, a sua pele. Puta que pariu! Parecia câmera lenta. Foi foda. Eu tinha que dar pra esse cara. Ok. Até aí, era só tesão mesmo e tudo bem. Sem pretensão de nada além de um sexo bom, com um cara gostoso.
Mas a coisa começou a ficar mais interessante, quando começamos a conversar e descobri que ele estava fazendo mestrado em Ciências Políticas e seu maior interesse era a política governamental de países com alto nível de corrupção e como essa corrupção afeta países em desenvolvimento (palavra politicamente correta para países de terceiro mundo ou subdesenvolvidos). Pela primeira vez, me apaixonei por ele.
A gente conversou a noite inteira sobre política, cultura. Foi legal. A gente tem a mesma leitura da vida, nos mostramos pessoas interessantes, descoladas, bonitas e disposta a mudar o mundo. Às vezes nos tocávamos de leve e vinha aquela sensação gostosa de querer agarrá-lo e transar ali mesmo. Quando a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu e a noite esfriou, eu o chamei pra dormir comigo. Óbvio.
Fizemos amor até o dia raiar. Foi uma delícia. Tomamos banho e fomos comer num café perto de casa. Fomos de mãos dada caminhando em silêncio. Estava muito frio. Ele tirou o cachecol, enrolou no meu pescoço e me deu um selinho. Me senti protegida. Extasiada pela noite deliciosa, cansada e feliz. E em menos de 24hs, me apaixonei pela segunda vez, pelo mesmo cara.
Desde então, começamos a nos ver com uma certa freqüência. Em 06 meses assumimos que estávamos completamente apaixonados um pelo outro e fomos morar juntos. Estava tudo perfeito. Foi a primeira vez que me envolvi de verdade com alguém. Claro que com 22 anos eu já tinha namorado vários carinhas, mas esse era O cara. Era meu homem. A gente se dava super bem. A transa era boa, a conversa era boa. Tudo era bom. Na minha cabeça, tudo se encaixava perfeitamente. Minha bolsa terminaria no final do ano, a gente viria para o Brasil, onde ele poderia ver de perto a política do país e claro, conhecer minha família. Ficaríamos por aqui até eu concluir a graduação e agitaria uma nova bolsa, desta vez para o mestrado.
Quando propus meus planos ao Ian, ele adorou a idéia. Ele era louco pra conhecer o Brasil. Aí a gente começou a agitar o lance da viagem. Eu voltaria um mês antes dele, pra ir vendo um apê pra gente alugar enquanto ele resolveria nossa mudança de lá.
Cheguei ao Brasil, informei aos meus pais e minha mãe quase teve um surto psicótico quando eu disse que ia morar com o gringo. Ela rasgou o verbo : Tá! Então você vai se AMASIAR com uma pessoa que eu nunca vi na vida e que não sei como a gente se comunicar. Pois o cara nem português deve falar. E você acha que eu tenho que fica de boa, como você gosta de dizer? Daniela! Você tem 22 anos, não sabe o que é morar junto. Não é só sexo, é conta pra pagar, é rotina pra administrar (até então, ela não sabia que eu e o Ian já estávamos morando juntos, há muito tempo) e vai sustentar a casa com o que? Vc já não tem mais a bolsa de estudos, não tem emprego, esse cara não vai conseguir trabalho de servente de pedreiro sem falar a nossa língua. Onde vc está com a cabeça?! Vc acha que seu pai vai sustentar vc, o gringo o apêzinho alugado pra vcs fazerem festinha e viverem uma vidinha de novela? Acorda!
Esperei a verborragia terminar e expliquei que a gente já tava namorando um ano, que a gente morava junto há 06 meses, que juntamos uma grana, os pais dele deram uma força pra gente começar uma vida aqui até eu arrumar um trampo e ele uma bolsa de estudos. Aí com tempo ela foi acostumando com a idéia, me ajudando a procurar um apê e quando achamos um, liguei pro Ian, pra contar a novidade e ver o que ele achava, ele ficou super feliz. Tipo, muito feliz mesmo, saca?
Só que aí ele me disse que atrasaria a vinda pra cá umas duas semanas. Um amigo dele do mestrado o convidou pra ir pra India com ele. Putz! Foi um balde de água fria. Ia morrer de saudades, mas era uma viagem importante. Não dava pra deixar passar.
Quando ia fechar o aluguel do apto, o dono me pediu uns dois meses, pois o sobrinho estava prestando vestibular e ele e a família iam ficar lá nesse período. Como minhas aulas só retomariam em março e o Ian viria em meados de fevereiro, achei que pudéssemos, com a grana que iríamos gastar no aluguel, viajar um pouco pelo Brasil e ficar na casa dos meus pais até liberarem o apê. Ele topou, meus pais toparam e lá fui eu, programar uma trip pra gente.
Até então, tudo certo. A gente se falava todos os dias, pelo menos duas vezes. Contei que iríamos pra Ilha Grande (onde eu já tinha feito reserva), depois a gente ia pro Rio, ficar na casa de um casal de amigos e de lá a gente ia pra Salvador ficar na casa de uma prima.
Minha vida estava perfeita. Até que ele viajou pra Índia e nosso contato ficou escasso. A gente começou a se falar uma vez a cada dois dias mais ou menos. Até que um dia o filho da puta me manda um torpedo assim: Dani! Sinto muito. Fiz uma viagem de trem para Jaipur e conheci uma indiana, a Amrit. Nunca senti nada igual, espero que um dia você possa me entender e me perdoar. Com amor, Ian.
Eu tremia, não conseguia pensar, não conseguia chorar. Era tudo muito surreal. Liguei pra ele desesperada, mas o telefone dele só dava caixa postal. Fiquei dias, tentando algum contato, angustiada, com esperança de ser uma brincadeira de mal gosto e que ele ia tocar a campanhia e me fazer uma surpresa. Cada vez que o celular, a campanhia, o telefone tocava e qualquer som que eu escutava, meu coração disparava, achando que era ele vindo ficar comigo. Eu dormia com o laptop e o celular na mão, com a esperança de uma notícia dele. Mandei um milhão de torpedos, emails, recados, mensagens, sinal de fumaça. Tudo o que vc possa imaginar pra que eu entendesse que o que tinha acontecido era real. Implorando uma satisfação. Até que um dia, sem agüentar mais a falta de notícias, mudei a estratégia e mandei um email assim:
Querido Ian
Foi difícil entender que não foi sua culpa, mas hoje percebo que todos nós estamos sujeitos aos temperos da vida. Siga feliz em sua nova jornada e eu farei o mesmo. Só peço o favor de me mandar meus livros e outros pertences pessoais para endereço tal.
Com carinho, Dani
Foi foda fingir que tudo bem. Eu queria mesmo era rasgar o verbo com ele, dizer o quanto ele é canalha, o quanto eu o odiava naquele momento, mas eu precisava entender o que realmente aconteceu e precisava dos meus materiais de estudo que estavam com ele.
Você acredita que na mesma hora , esse infeliz me liga dizendo que está na Inglaterra (ele é inglês), que casou com a vadia da indiana. CASOU, saca? E que está muito feliz de poder contar com o meu perdão?! E que lamenta não termos dado certo, mas que quer vir pro Brasil ainda pra fazer aquela trip que EU programei pra NÓS DOIS?! Você acredita nisso?!
Despedaçada por dentro, mas agora só pensando nos meus artigos, livros, CDs, roupas perguntei com toda calma que pude encontrar na voz, como é que a vaca da mulher dele vê essa situação. De ele querer vir para o Brasil, fazer uma viagem que fora programado pela ex namorada? Sabe o que ele respondeu:
A Amrit é uma mulher muito dócil e compreensiva. Ela veio de uma família muito simples, foi criada para ser esposa. Às vezes tento mostrar a ela que não precisa ser submissa ou concordar com tudo o que eu falo. E assim ela concorda (risos). Você acha que tudo bem, se nós fôssemos para o Brasil te encontrar? Assim posso levar pessoalmente as suas coisas. Não quero perder sua amizade. Sinto sua falta.
Eu fiquei completamente sem saber o que pensar. Parecia que eu era o próprio quadro de Dali, onde o tempo derrete a memória e tudo escorre pelo chão.
Só respondi: Claro! Venham. e desliguei.
Não é que eles vieram? Sabe o que eu fiz? Despachei os dois no hotel mais chumbrega perto de Cumbica, numa quebrada onde ninguém falava inglês muito menos alemão, peguei minhas coisas que estavam com ele e desapareci. Foi vingança? Não sei..,acho que sim. Teve uma parte de mim que ficou com pena dela, afinal ela não tinha culpa do canalha que ele é, mas na boa, na hora me deu até um tesão. Depois saí pra comemorar com meus amigos e acabei fazendo aquela viagem com uma amiga.
A minha prima diz que quando acha que não vou mais surpreendê-la com minhas histórias, eu venho com uma novidade pra abalar a família Doriana. Atualmente estou terminando meu mestrado na Alemanha, conheci um japonês bem nerd no Haiti, nas férias, ele é 15 anos mais velho do que eu, gordinho baixinho de óculos, amigo do meu primo mais careta e com certeza, já beijei mais mulher na faculdade do que ele na vida inteira. E quer saber? Sou apaixonada pelo meu japinha bob esponja calça quadrada.
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