Como lido com isso? Fácil. Eu bebo. Brincadeira. Eu simplesmente vou levando e surtando. Tenho a sensação que as decisões mais importantes da minha vida são tomadas por outras pessoas e isso me deixa completamente irado. Pois detesto ser controlado.
Tudo começou quando me apaixonei pela prima distante do meu pai. Na época, eu tinha 28 anos e ela 23. Fiquei alucinado. Depois de algumas investidas, a gente começou a namorar. Eu ainda morava com meus pais e ela morava com uma prima. Tudo ia bem, até que a prima dela casou e a Mari não tinha pra onde ir. Ela estava terminando a faculdade de arquitetura, vivia de mesada e não tinha como se sustentar. Eu, por outro lado, já estava galgando uma posição melhor na empresa, porém ainda não estava pronto pra morar junto. Eis que minha mãe teve a infeliz idéia de convidá-la pra ficar em casa até tudo se ajeitar. E, óbvio que ela foi.
Fiquei puto da vida com minha mãe. Eu amava a Mari, mas ela ir morar lá, teria que ser, no mínimo, uma decisão nossa. Mas D. Helena disse que antes de ser minha namorada, era uma pessoa da família e temos a obrigação de estender a mão. Que seria só até ela se formar e bláb blá blá...
Nossa vida virou de cabeça pra baixo. Meu trabalho é muito estressante e esse negócio da mulher querer saber como foi seu dia, é um SACO! Eu só queria chegar em casa, tomar um banho, jantar, tomar uma cervejinha, ver o jogo e capotar.
Aí quando eu não respondia ou não dava a atenção ao "resumo do dia" a gente tinha a tal da D.R. Cacete! Imagina tomar paulada o dia inteiro no serviço, chegar em casa doido pra relaxar, sem vontade nenhuma de revisar as merdas que aconteceram no trampo e ao invés da sua mulher te dá uns beijinhos e quem sabe uma rapidinha, ela acha que você tá diferente, tá distante, que algo aconteceu, que você não partilha os sentimentos e blá blá blá...é foda!
Em alguns meses a situação estava impraticável mas graças à Deus, ela se formou, arrumou um estágio e foi morar sozinha, numa kit.
Foi ótimo. A gente já não se via por obrigação, mas por saudade, por vontade. O nosso tempo era algo controlável.
Depois de um ano que a Mari foi morar sozinha e eu praticamente dormia lá todos os dias, resolvemos juntar as tralhas.
Pra mim, era simples. Eu cataria as minhas coisas na casa dos meus pais, mudaria pro apê dela e dividiríamos as contas.
Quando achei que finalmente iria tomar as rédeas da minha vida, comecei a passar mal. Eu estava num meio de um projeto importante, quando senti falta de ar. Fui parar no ps. Passei a noite inteira lá. De manhã, liguei pro meu assistente dizendo que iria à tarde, pra ele ir tocando o trabalho sozinho. Chegou a tarde e eu não fui. O médico achou melhor me internar para realizar uma bateria de exames. Estava suspeitando um princípio de infarto. Liguei para empresa e tentei resolver as coisas via telefone. Depois de algumas tantas ligações, meu celular fora confiscado por ordens médicas. Precisava descansar. Mas isso só agravou meu quadro. Estava muito ansioso por conta do projeto.
Fiquei dois dias internados. Quando retornei ao trabalho, o meu assistente estava no comando sob a supervisão do gerente. Foi uma apunhalada nas costas, mas o projeto tinha prazo para ser entregue e se não fosse ele, seria outro em meu lugar. E como ainda estava em observação, sendo monitorado por aqueles aparelhinhos de coração e pressão, aproveitei as férias forçadas de uma semana para ver a minha saúde e encaixotar minhas tralhas.
O resultado dos exames coincidiram com a entrega do projeto.
O projeto fora bem sucedido e os exames não deram em nada. O médico me disse que era pico de estresse e me encaminhou para um psiquiatra.
Lá no psiquiatra, logo nas primeiras consultas, ganhei remédio pra dormir, remédio pra acordar, remédio pro humor e a notícia que o tilt que me deu, não era por conta do projeto no trampo, mas porque eu estava com TPN. Sabe o que isso significa? Tensão Pré Nupcial. Ele ainda deu uma sacaneadinha dizendo: "Quando casar, passa"
Casei há 05 anos e quer saber? Não passou. A gente tá no meio de uma crise. Mais uma pra coleção. Mas estamos tentando.
Assim ó, amo muito a Mari. Ela é linda, gostosa, inteligente, mas sei lá, perdeu aquela leveza. Sei que a carreira dela tá exigindo muito, mas todo dia ela chega tarde, estressada e reclamando de tudo, de todos e o pior: de mim. Tipo que não lavei a louça ou que lavei mas não sequei.Ou que sequei mas não guardei. Ou que guardei mas no lugar errado. NADA que eu faça, agrada. NADA que eu diga, tá certo.
E pra agravar a situação, ela tá com papo de querer filhos. Como assim?! A gente não tá dando conta de nós mesmos. Mas por outro lado, amo muito a Mari e quero que a gente se acerte
Talvez eu ceda à pressão. Fico nervoso de pensar, que mais uma vez, não decido nada importante na minha vida. Simplesmente cedo.
Parei com os remédios, mas continuo indo na terapia. O terapeuta me diz que muitas vezes a dor da separação é menor do que a da sustentação. Tá, mas quando saber que estamos sustentando um relacionamento fracassado? Quando saber que é hora de recuar, se ainda se ama?
pé na bunda
Pra quem já levou. Pra quem já deu.
quinta-feira, 31 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
Rosa, 33 anos
Fiz tudo como manda o figurino. Namorei por 02 anos, noivei mais dois e quando terminei a faculdade, me casei com o Marcelo. E com 29 anos já estava separada. Simplesmente não deu certo. Enquanto eu estudava, fazia estágio, cursos de inglês, informática,capoeira, academia, baladas, eu vivia num universo paralelo.O Marcelo sempre foi tranquilão. Nunca me acompanhava nas noitadas com a galera da facu, mas também nunca reclamou de eu ir. Eu achava que nós éramos o casal perfeito. Respeitávamos nossas diferenças. Éramos como dia e noite, Yin e Yang. O jeito traquilo dele equilibrava meu temperamento agitado e vice e versa. Mas quando nos casamos e o meu universo paralelo deixou de existir as diferenças se tornaram gritantes, irritantes. Achei que seria uma fase, mas depois de um tempo, percebemos que realmente não éramos duas metades de uma laranja, mas dois abacaxis inteiros.
Até hoje somos amigos.
Diferente do Théo, que não quero ver pintado de ouro.
Logo que me separei, voltei a estudar, a fazer academia e a sair com as minhas amigas. Um belo dia, uma delas resolveu me apresentar um amigo. A gente saiu e começamos a namorar. Ele dormia em casa nos finais de semana e aos poucos foi ocupando um espaço tanto no apartamento quanto na minha vida. Eu já estava com 31 anos, tinha terminado a pós graduação, tinha um cargo de gerência na empresa e ele também estava numa fase boa profissionalmente. A gente se dava super bem. Gostávamos de sair pra tomar uma cervejinha à noite, de correr na praia, de viajar e dividíamos as despesas de casa. Nunca brigamos ou discutimos por nada. A vida estava simplesmente perfeita. Dois anos vivendo nesse castelo de areia que em breve
desmoronaria da noite pro dia. Assim, como num vendaval.
Quando fiz 33 anos, já estava estabilizada profissional, emocional e financeiramente. Comecei a sentir que estava preparada para assumir uma família. A ter filhos. Numa primeira tentativa de conversa, ele desconversou e sem avisar, apareceu de carro novo num claro sinal - agora percebo isso - de que ele tinha outras prioridades. Outros pequenos sinais foram aparecendo, mas que passaram despercebidos por mim.
Toda vez que eu tentava tocar no assunto "família", ele desconversava. Mas eu tinha que saber quais eram as suas prioridades ou pelo menos seus planos para o futuro. Meu corpo estava pronto, minha vida estava pronta. Eu tinha o direito de saber se caminhávamos na mesma direção.
Um belo dia,sem nenhuma explicação,ele deixou uma mensagem no celular dizendo que chaves estavam na caixa do correio e que eu merecia alguém melhor.
Claro que mereço alguém melhor. Toda mulher merece alguém melhor do que ele.
O fato é que me senti culpada,frustrada, não pelo fracasso da relação,pois este mérito é dele, mas por deixar me levar por um relacionamento tão frágil. Por não perceber que nessa relação, só eu amava, só eu cuidava, enquanto ele só queria se divertir. Quanto dedicação e tempo para que?! Dois anos jogados ao vento.
Hoje estou numa fase livre, leve e solta. Dou meus beijinhos sem compromisso , tomo umas cervejinhas com as amigas e assim vou levando. E se o paquera da noite anterior ligar no dia seguinte para um almoço, eu surto..rsss
Estou feliz assim, me curtindo, curtindo a vida, mas agora que o inverno tá chegando.. dá uma vontade de ficar juntinho na lareira, no vinhozinho....isso dá mesmo. Mas agora sei separar o joio do trigo. E enquanto a colheita de trigo está na entressafra, vou aproveitando pra tirar minhas casquinhas aqui e acolá.
Até hoje somos amigos.
Diferente do Théo, que não quero ver pintado de ouro.
Logo que me separei, voltei a estudar, a fazer academia e a sair com as minhas amigas. Um belo dia, uma delas resolveu me apresentar um amigo. A gente saiu e começamos a namorar. Ele dormia em casa nos finais de semana e aos poucos foi ocupando um espaço tanto no apartamento quanto na minha vida. Eu já estava com 31 anos, tinha terminado a pós graduação, tinha um cargo de gerência na empresa e ele também estava numa fase boa profissionalmente. A gente se dava super bem. Gostávamos de sair pra tomar uma cervejinha à noite, de correr na praia, de viajar e dividíamos as despesas de casa. Nunca brigamos ou discutimos por nada. A vida estava simplesmente perfeita. Dois anos vivendo nesse castelo de areia que em breve
desmoronaria da noite pro dia. Assim, como num vendaval.
Quando fiz 33 anos, já estava estabilizada profissional, emocional e financeiramente. Comecei a sentir que estava preparada para assumir uma família. A ter filhos. Numa primeira tentativa de conversa, ele desconversou e sem avisar, apareceu de carro novo num claro sinal - agora percebo isso - de que ele tinha outras prioridades. Outros pequenos sinais foram aparecendo, mas que passaram despercebidos por mim.
Toda vez que eu tentava tocar no assunto "família", ele desconversava. Mas eu tinha que saber quais eram as suas prioridades ou pelo menos seus planos para o futuro. Meu corpo estava pronto, minha vida estava pronta. Eu tinha o direito de saber se caminhávamos na mesma direção.
Um belo dia,sem nenhuma explicação,ele deixou uma mensagem no celular dizendo que chaves estavam na caixa do correio e que eu merecia alguém melhor.
Claro que mereço alguém melhor. Toda mulher merece alguém melhor do que ele.
O fato é que me senti culpada,frustrada, não pelo fracasso da relação,pois este mérito é dele, mas por deixar me levar por um relacionamento tão frágil. Por não perceber que nessa relação, só eu amava, só eu cuidava, enquanto ele só queria se divertir. Quanto dedicação e tempo para que?! Dois anos jogados ao vento.
Hoje estou numa fase livre, leve e solta. Dou meus beijinhos sem compromisso , tomo umas cervejinhas com as amigas e assim vou levando. E se o paquera da noite anterior ligar no dia seguinte para um almoço, eu surto..rsss
Estou feliz assim, me curtindo, curtindo a vida, mas agora que o inverno tá chegando.. dá uma vontade de ficar juntinho na lareira, no vinhozinho....isso dá mesmo. Mas agora sei separar o joio do trigo. E enquanto a colheita de trigo está na entressafra, vou aproveitando pra tirar minhas casquinhas aqui e acolá.
Dani, 22 anos
Quando surgiu a oportunidade de uma bolsa de estudos em Berlim, não pensei duas vezes. Sair aos 21 anos da casa dos pais era um alívio. Tava muito fora de ser como minhas primas que saíram de casa para casar. Afe! Surreal.
Claro que não foi fácil. Nunca morei sozinha, muito menos em outro país, mas meu sonho estava começando a concretizar. Estudar R.I. num país de primeiro mundo, morar em república com gente de tudo quanto é lugar. Trocar idéias, informações, conhecer outras culturas, tudo isso foi um convite à vida que sempre sonhei.
Foi numa das festas lá na república que conheci o Ian. Apesar de estar meio alta, lembro como se fosse hoje a química que rolou entre a gente logo que fomos apresentados. Ai. Um arrepio no corpo, quando ele me cumprimentou com um beijo no rosto. Senti seu cheiro, a sua pele. Puta que pariu! Parecia câmera lenta. Foi foda. Eu tinha que dar pra esse cara. Ok. Até aí, era só tesão mesmo e tudo bem. Sem pretensão de nada além de um sexo bom, com um cara gostoso.
Mas a coisa começou a ficar mais interessante, quando começamos a conversar e descobri que ele estava fazendo mestrado em Ciências Políticas e seu maior interesse era a política governamental de países com alto nível de corrupção e como essa corrupção afeta países em desenvolvimento (palavra politicamente correta para países de terceiro mundo ou subdesenvolvidos). Pela primeira vez, me apaixonei por ele.
A gente conversou a noite inteira sobre política, cultura. Foi legal. A gente tem a mesma leitura da vida, nos mostramos pessoas interessantes, descoladas, bonitas e disposta a mudar o mundo. Às vezes nos tocávamos de leve e vinha aquela sensação gostosa de querer agarrá-lo e transar ali mesmo. Quando a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu e a noite esfriou, eu o chamei pra dormir comigo. Óbvio.
Fizemos amor até o dia raiar. Foi uma delícia. Tomamos banho e fomos comer num café perto de casa. Fomos de mãos dada caminhando em silêncio. Estava muito frio. Ele tirou o cachecol, enrolou no meu pescoço e me deu um selinho. Me senti protegida. Extasiada pela noite deliciosa, cansada e feliz. E em menos de 24hs, me apaixonei pela segunda vez, pelo mesmo cara.
Desde então, começamos a nos ver com uma certa freqüência. Em 06 meses assumimos que estávamos completamente apaixonados um pelo outro e fomos morar juntos. Estava tudo perfeito. Foi a primeira vez que me envolvi de verdade com alguém. Claro que com 22 anos eu já tinha namorado vários carinhas, mas esse era O cara. Era meu homem. A gente se dava super bem. A transa era boa, a conversa era boa. Tudo era bom. Na minha cabeça, tudo se encaixava perfeitamente. Minha bolsa terminaria no final do ano, a gente viria para o Brasil, onde ele poderia ver de perto a política do país e claro, conhecer minha família. Ficaríamos por aqui até eu concluir a graduação e agitaria uma nova bolsa, desta vez para o mestrado.
Quando propus meus planos ao Ian, ele adorou a idéia. Ele era louco pra conhecer o Brasil. Aí a gente começou a agitar o lance da viagem. Eu voltaria um mês antes dele, pra ir vendo um apê pra gente alugar enquanto ele resolveria nossa mudança de lá.
Cheguei ao Brasil, informei aos meus pais e minha mãe quase teve um surto psicótico quando eu disse que ia morar com o gringo. Ela rasgou o verbo : Tá! Então você vai se AMASIAR com uma pessoa que eu nunca vi na vida e que não sei como a gente se comunicar. Pois o cara nem português deve falar. E você acha que eu tenho que fica de boa, como você gosta de dizer? Daniela! Você tem 22 anos, não sabe o que é morar junto. Não é só sexo, é conta pra pagar, é rotina pra administrar (até então, ela não sabia que eu e o Ian já estávamos morando juntos, há muito tempo) e vai sustentar a casa com o que? Vc já não tem mais a bolsa de estudos, não tem emprego, esse cara não vai conseguir trabalho de servente de pedreiro sem falar a nossa língua. Onde vc está com a cabeça?! Vc acha que seu pai vai sustentar vc, o gringo o apêzinho alugado pra vcs fazerem festinha e viverem uma vidinha de novela? Acorda!
Esperei a verborragia terminar e expliquei que a gente já tava namorando um ano, que a gente morava junto há 06 meses, que juntamos uma grana, os pais dele deram uma força pra gente começar uma vida aqui até eu arrumar um trampo e ele uma bolsa de estudos. Aí com tempo ela foi acostumando com a idéia, me ajudando a procurar um apê e quando achamos um, liguei pro Ian, pra contar a novidade e ver o que ele achava, ele ficou super feliz. Tipo, muito feliz mesmo, saca?
Só que aí ele me disse que atrasaria a vinda pra cá umas duas semanas. Um amigo dele do mestrado o convidou pra ir pra India com ele. Putz! Foi um balde de água fria. Ia morrer de saudades, mas era uma viagem importante. Não dava pra deixar passar.
Quando ia fechar o aluguel do apto, o dono me pediu uns dois meses, pois o sobrinho estava prestando vestibular e ele e a família iam ficar lá nesse período. Como minhas aulas só retomariam em março e o Ian viria em meados de fevereiro, achei que pudéssemos, com a grana que iríamos gastar no aluguel, viajar um pouco pelo Brasil e ficar na casa dos meus pais até liberarem o apê. Ele topou, meus pais toparam e lá fui eu, programar uma trip pra gente.
Até então, tudo certo. A gente se falava todos os dias, pelo menos duas vezes. Contei que iríamos pra Ilha Grande (onde eu já tinha feito reserva), depois a gente ia pro Rio, ficar na casa de um casal de amigos e de lá a gente ia pra Salvador ficar na casa de uma prima.
Minha vida estava perfeita. Até que ele viajou pra Índia e nosso contato ficou escasso. A gente começou a se falar uma vez a cada dois dias mais ou menos. Até que um dia o filho da puta me manda um torpedo assim: Dani! Sinto muito. Fiz uma viagem de trem para Jaipur e conheci uma indiana, a Amrit. Nunca senti nada igual, espero que um dia você possa me entender e me perdoar. Com amor, Ian.
Eu tremia, não conseguia pensar, não conseguia chorar. Era tudo muito surreal. Liguei pra ele desesperada, mas o telefone dele só dava caixa postal. Fiquei dias, tentando algum contato, angustiada, com esperança de ser uma brincadeira de mal gosto e que ele ia tocar a campanhia e me fazer uma surpresa. Cada vez que o celular, a campanhia, o telefone tocava e qualquer som que eu escutava, meu coração disparava, achando que era ele vindo ficar comigo. Eu dormia com o laptop e o celular na mão, com a esperança de uma notícia dele. Mandei um milhão de torpedos, emails, recados, mensagens, sinal de fumaça. Tudo o que vc possa imaginar pra que eu entendesse que o que tinha acontecido era real. Implorando uma satisfação. Até que um dia, sem agüentar mais a falta de notícias, mudei a estratégia e mandei um email assim:
Querido Ian
Foi difícil entender que não foi sua culpa, mas hoje percebo que todos nós estamos sujeitos aos temperos da vida. Siga feliz em sua nova jornada e eu farei o mesmo. Só peço o favor de me mandar meus livros e outros pertences pessoais para endereço tal.
Com carinho, Dani
Foi foda fingir que tudo bem. Eu queria mesmo era rasgar o verbo com ele, dizer o quanto ele é canalha, o quanto eu o odiava naquele momento, mas eu precisava entender o que realmente aconteceu e precisava dos meus materiais de estudo que estavam com ele.
Você acredita que na mesma hora , esse infeliz me liga dizendo que está na Inglaterra (ele é inglês), que casou com a vadia da indiana. CASOU, saca? E que está muito feliz de poder contar com o meu perdão?! E que lamenta não termos dado certo, mas que quer vir pro Brasil ainda pra fazer aquela trip que EU programei pra NÓS DOIS?! Você acredita nisso?!
Despedaçada por dentro, mas agora só pensando nos meus artigos, livros, CDs, roupas perguntei com toda calma que pude encontrar na voz, como é que a vaca da mulher dele vê essa situação. De ele querer vir para o Brasil, fazer uma viagem que fora programado pela ex namorada? Sabe o que ele respondeu:
A Amrit é uma mulher muito dócil e compreensiva. Ela veio de uma família muito simples, foi criada para ser esposa. Às vezes tento mostrar a ela que não precisa ser submissa ou concordar com tudo o que eu falo. E assim ela concorda (risos). Você acha que tudo bem, se nós fôssemos para o Brasil te encontrar? Assim posso levar pessoalmente as suas coisas. Não quero perder sua amizade. Sinto sua falta.
Eu fiquei completamente sem saber o que pensar. Parecia que eu era o próprio quadro de Dali, onde o tempo derrete a memória e tudo escorre pelo chão.
Só respondi: Claro! Venham. e desliguei.
Não é que eles vieram? Sabe o que eu fiz? Despachei os dois no hotel mais chumbrega perto de Cumbica, numa quebrada onde ninguém falava inglês muito menos alemão, peguei minhas coisas que estavam com ele e desapareci. Foi vingança? Não sei..,acho que sim. Teve uma parte de mim que ficou com pena dela, afinal ela não tinha culpa do canalha que ele é, mas na boa, na hora me deu até um tesão. Depois saí pra comemorar com meus amigos e acabei fazendo aquela viagem com uma amiga.
A minha prima diz que quando acha que não vou mais surpreendê-la com minhas histórias, eu venho com uma novidade pra abalar a família Doriana. Atualmente estou terminando meu mestrado na Alemanha, conheci um japonês bem nerd no Haiti, nas férias, ele é 15 anos mais velho do que eu, gordinho baixinho de óculos, amigo do meu primo mais careta e com certeza, já beijei mais mulher na faculdade do que ele na vida inteira. E quer saber? Sou apaixonada pelo meu japinha bob esponja calça quadrada.
Claro que não foi fácil. Nunca morei sozinha, muito menos em outro país, mas meu sonho estava começando a concretizar. Estudar R.I. num país de primeiro mundo, morar em república com gente de tudo quanto é lugar. Trocar idéias, informações, conhecer outras culturas, tudo isso foi um convite à vida que sempre sonhei.
Foi numa das festas lá na república que conheci o Ian. Apesar de estar meio alta, lembro como se fosse hoje a química que rolou entre a gente logo que fomos apresentados. Ai. Um arrepio no corpo, quando ele me cumprimentou com um beijo no rosto. Senti seu cheiro, a sua pele. Puta que pariu! Parecia câmera lenta. Foi foda. Eu tinha que dar pra esse cara. Ok. Até aí, era só tesão mesmo e tudo bem. Sem pretensão de nada além de um sexo bom, com um cara gostoso.
Mas a coisa começou a ficar mais interessante, quando começamos a conversar e descobri que ele estava fazendo mestrado em Ciências Políticas e seu maior interesse era a política governamental de países com alto nível de corrupção e como essa corrupção afeta países em desenvolvimento (palavra politicamente correta para países de terceiro mundo ou subdesenvolvidos). Pela primeira vez, me apaixonei por ele.
A gente conversou a noite inteira sobre política, cultura. Foi legal. A gente tem a mesma leitura da vida, nos mostramos pessoas interessantes, descoladas, bonitas e disposta a mudar o mundo. Às vezes nos tocávamos de leve e vinha aquela sensação gostosa de querer agarrá-lo e transar ali mesmo. Quando a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu e a noite esfriou, eu o chamei pra dormir comigo. Óbvio.
Fizemos amor até o dia raiar. Foi uma delícia. Tomamos banho e fomos comer num café perto de casa. Fomos de mãos dada caminhando em silêncio. Estava muito frio. Ele tirou o cachecol, enrolou no meu pescoço e me deu um selinho. Me senti protegida. Extasiada pela noite deliciosa, cansada e feliz. E em menos de 24hs, me apaixonei pela segunda vez, pelo mesmo cara.
Desde então, começamos a nos ver com uma certa freqüência. Em 06 meses assumimos que estávamos completamente apaixonados um pelo outro e fomos morar juntos. Estava tudo perfeito. Foi a primeira vez que me envolvi de verdade com alguém. Claro que com 22 anos eu já tinha namorado vários carinhas, mas esse era O cara. Era meu homem. A gente se dava super bem. A transa era boa, a conversa era boa. Tudo era bom. Na minha cabeça, tudo se encaixava perfeitamente. Minha bolsa terminaria no final do ano, a gente viria para o Brasil, onde ele poderia ver de perto a política do país e claro, conhecer minha família. Ficaríamos por aqui até eu concluir a graduação e agitaria uma nova bolsa, desta vez para o mestrado.
Quando propus meus planos ao Ian, ele adorou a idéia. Ele era louco pra conhecer o Brasil. Aí a gente começou a agitar o lance da viagem. Eu voltaria um mês antes dele, pra ir vendo um apê pra gente alugar enquanto ele resolveria nossa mudança de lá.
Cheguei ao Brasil, informei aos meus pais e minha mãe quase teve um surto psicótico quando eu disse que ia morar com o gringo. Ela rasgou o verbo : Tá! Então você vai se AMASIAR com uma pessoa que eu nunca vi na vida e que não sei como a gente se comunicar. Pois o cara nem português deve falar. E você acha que eu tenho que fica de boa, como você gosta de dizer? Daniela! Você tem 22 anos, não sabe o que é morar junto. Não é só sexo, é conta pra pagar, é rotina pra administrar (até então, ela não sabia que eu e o Ian já estávamos morando juntos, há muito tempo) e vai sustentar a casa com o que? Vc já não tem mais a bolsa de estudos, não tem emprego, esse cara não vai conseguir trabalho de servente de pedreiro sem falar a nossa língua. Onde vc está com a cabeça?! Vc acha que seu pai vai sustentar vc, o gringo o apêzinho alugado pra vcs fazerem festinha e viverem uma vidinha de novela? Acorda!
Esperei a verborragia terminar e expliquei que a gente já tava namorando um ano, que a gente morava junto há 06 meses, que juntamos uma grana, os pais dele deram uma força pra gente começar uma vida aqui até eu arrumar um trampo e ele uma bolsa de estudos. Aí com tempo ela foi acostumando com a idéia, me ajudando a procurar um apê e quando achamos um, liguei pro Ian, pra contar a novidade e ver o que ele achava, ele ficou super feliz. Tipo, muito feliz mesmo, saca?
Só que aí ele me disse que atrasaria a vinda pra cá umas duas semanas. Um amigo dele do mestrado o convidou pra ir pra India com ele. Putz! Foi um balde de água fria. Ia morrer de saudades, mas era uma viagem importante. Não dava pra deixar passar.
Quando ia fechar o aluguel do apto, o dono me pediu uns dois meses, pois o sobrinho estava prestando vestibular e ele e a família iam ficar lá nesse período. Como minhas aulas só retomariam em março e o Ian viria em meados de fevereiro, achei que pudéssemos, com a grana que iríamos gastar no aluguel, viajar um pouco pelo Brasil e ficar na casa dos meus pais até liberarem o apê. Ele topou, meus pais toparam e lá fui eu, programar uma trip pra gente.
Até então, tudo certo. A gente se falava todos os dias, pelo menos duas vezes. Contei que iríamos pra Ilha Grande (onde eu já tinha feito reserva), depois a gente ia pro Rio, ficar na casa de um casal de amigos e de lá a gente ia pra Salvador ficar na casa de uma prima.
Minha vida estava perfeita. Até que ele viajou pra Índia e nosso contato ficou escasso. A gente começou a se falar uma vez a cada dois dias mais ou menos. Até que um dia o filho da puta me manda um torpedo assim: Dani! Sinto muito. Fiz uma viagem de trem para Jaipur e conheci uma indiana, a Amrit. Nunca senti nada igual, espero que um dia você possa me entender e me perdoar. Com amor, Ian.
Eu tremia, não conseguia pensar, não conseguia chorar. Era tudo muito surreal. Liguei pra ele desesperada, mas o telefone dele só dava caixa postal. Fiquei dias, tentando algum contato, angustiada, com esperança de ser uma brincadeira de mal gosto e que ele ia tocar a campanhia e me fazer uma surpresa. Cada vez que o celular, a campanhia, o telefone tocava e qualquer som que eu escutava, meu coração disparava, achando que era ele vindo ficar comigo. Eu dormia com o laptop e o celular na mão, com a esperança de uma notícia dele. Mandei um milhão de torpedos, emails, recados, mensagens, sinal de fumaça. Tudo o que vc possa imaginar pra que eu entendesse que o que tinha acontecido era real. Implorando uma satisfação. Até que um dia, sem agüentar mais a falta de notícias, mudei a estratégia e mandei um email assim:
Querido Ian
Foi difícil entender que não foi sua culpa, mas hoje percebo que todos nós estamos sujeitos aos temperos da vida. Siga feliz em sua nova jornada e eu farei o mesmo. Só peço o favor de me mandar meus livros e outros pertences pessoais para endereço tal.
Com carinho, Dani
Foi foda fingir que tudo bem. Eu queria mesmo era rasgar o verbo com ele, dizer o quanto ele é canalha, o quanto eu o odiava naquele momento, mas eu precisava entender o que realmente aconteceu e precisava dos meus materiais de estudo que estavam com ele.
Você acredita que na mesma hora , esse infeliz me liga dizendo que está na Inglaterra (ele é inglês), que casou com a vadia da indiana. CASOU, saca? E que está muito feliz de poder contar com o meu perdão?! E que lamenta não termos dado certo, mas que quer vir pro Brasil ainda pra fazer aquela trip que EU programei pra NÓS DOIS?! Você acredita nisso?!
Despedaçada por dentro, mas agora só pensando nos meus artigos, livros, CDs, roupas perguntei com toda calma que pude encontrar na voz, como é que a vaca da mulher dele vê essa situação. De ele querer vir para o Brasil, fazer uma viagem que fora programado pela ex namorada? Sabe o que ele respondeu:
A Amrit é uma mulher muito dócil e compreensiva. Ela veio de uma família muito simples, foi criada para ser esposa. Às vezes tento mostrar a ela que não precisa ser submissa ou concordar com tudo o que eu falo. E assim ela concorda (risos). Você acha que tudo bem, se nós fôssemos para o Brasil te encontrar? Assim posso levar pessoalmente as suas coisas. Não quero perder sua amizade. Sinto sua falta.
Eu fiquei completamente sem saber o que pensar. Parecia que eu era o próprio quadro de Dali, onde o tempo derrete a memória e tudo escorre pelo chão.
Só respondi: Claro! Venham. e desliguei.
Não é que eles vieram? Sabe o que eu fiz? Despachei os dois no hotel mais chumbrega perto de Cumbica, numa quebrada onde ninguém falava inglês muito menos alemão, peguei minhas coisas que estavam com ele e desapareci. Foi vingança? Não sei..,acho que sim. Teve uma parte de mim que ficou com pena dela, afinal ela não tinha culpa do canalha que ele é, mas na boa, na hora me deu até um tesão. Depois saí pra comemorar com meus amigos e acabei fazendo aquela viagem com uma amiga.
A minha prima diz que quando acha que não vou mais surpreendê-la com minhas histórias, eu venho com uma novidade pra abalar a família Doriana. Atualmente estou terminando meu mestrado na Alemanha, conheci um japonês bem nerd no Haiti, nas férias, ele é 15 anos mais velho do que eu, gordinho baixinho de óculos, amigo do meu primo mais careta e com certeza, já beijei mais mulher na faculdade do que ele na vida inteira. E quer saber? Sou apaixonada pelo meu japinha bob esponja calça quadrada.
Como surgiu
A idéia surgiu, quando um amigo me pediu pra escrever três desventuras amorosas.
Mas como andava sem idéias, pedi a algumas amigas pra me contarem suas histórias.
Recebi várias. Algumas engraçadas, outras surreais, outras pesadas. A dor da separação pode ser maior ou menor, mas sempre é uma dor. Independente se deu ou levou o pé na bunda.
Quer me contar sua história? Me mande um email. Protejo sua identidade e detalhes. Quero mesmo é contar como as desventuras amorosas também podem temperar a vida.
Mas como andava sem idéias, pedi a algumas amigas pra me contarem suas histórias.
Recebi várias. Algumas engraçadas, outras surreais, outras pesadas. A dor da separação pode ser maior ou menor, mas sempre é uma dor. Independente se deu ou levou o pé na bunda.
Quer me contar sua história? Me mande um email. Protejo sua identidade e detalhes. Quero mesmo é contar como as desventuras amorosas também podem temperar a vida.
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